{"id":8963,"date":"2006-09-11T10:44:09","date_gmt":"2006-09-11T13:44:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sinpecpf.org.br\/site\/por-dentro-da-policia-federal\/"},"modified":"2006-09-11T10:44:09","modified_gmt":"2006-09-11T13:44:09","slug":"por-dentro-da-policia-federal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinpecpf.org.br\/site\/por-dentro-da-policia-federal\/","title":{"rendered":"Por dentro da Pol\u00edcia Federal"},"content":{"rendered":"<p>Como funciona a m\u00e1quina de investigar e prender que surpreende o Pa\u00eds pelo arrojo, intelig\u00eancia e sucesso<\/p>\n<p>&#8220;Parab\u00e9ns, doutor! Que opera\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d <\/p>\n<p>Espont\u00e2nea, a frase partiu de um homem conhecido como Torturado, codinome de Lucivaldo Laurindo, no momento em que, junto a outros 25 bandidos, foi algemado e deitado sobre o ch\u00e3o de uma casa em Porto Alegre. Come\u00e7ava ali, sem o disparo de um tiro sequer, a mais espetacular seq\u00fc\u00eancia de pris\u00f5es entre o crime organizado dos \u00faltimos tempos. Na segunda-feira 4, poucos dias depois, em meio \u00e0 captura em flagrante de outros 20 assaltantes de banco em dez Estados do Pa\u00eds, chegou-se a um endere\u00e7o no Paraguai no qual foi apreendido um dos mais bem fornidos arsenais montados este ano: 222 rev\u00f3lveres, 195 pistolas e 174 escopetas e rifles, prontos para circular no eixo Rio-S\u00e3o Paulo. Fulminantes, servindo-se de espionagem e, ao mesmo tempo, alta tecnologia, todas essas a\u00e7\u00f5es t\u00eam uma marca em comum: a marca da Pol\u00edcia Federal. <\/p>\n<p>O ponto central para o sucesso desta e de outras opera\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas fica no quinto andar do \u201cMorcego negro\u201d \u2013 a sede da corpora\u00e7\u00e3o, em Bras\u00edlia. \u00c9 l\u00e1, sob vigil\u00e2ncia permanente de c\u00e2maras de v\u00eddeo e com o acesso protegido por senhas, que funciona a Diretoria de Intelig\u00eancia Policial (DIP). Desse andar saem ordens para pris\u00f5es de todos os naipes, do ex-governador Paulo Maluf \u00e0 empres\u00e1ria Eliana Tranchesi, dona da Daslu. E tamb\u00e9m para opera\u00e7\u00f5es, em conjunto com a pol\u00edcia paraguaia, do arsenal na semana passada. A DIP tem cerca de 100 agentes na capital federal. Eles mal se conhecem entre si. \u00c9 famoso no Rio de Janeiro o caso de um agente que se vestiu de mendigo e por cinco dias viveu na porta de um delegado da pr\u00f3pria PF. Ao cabo, deu voz de pris\u00e3o ao superior, flagrado ao receber propina. Os agentes do DIP t\u00eam a miss\u00e3o de esmiu\u00e7ar o modus operandi dos alvos, nem que para isso tenham que ficar no encal\u00e7o deles 24 horas por dia. Eles t\u00eam carta branca para viajar para onde for preciso atr\u00e1s dos investigados. Quando mulheres, s\u00e3o conhecidas como \u201candorinhas\u201d. Isso porque muitas vezes se imiscuem entre os bandidos usando as armas do charme e da sensualidade.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 no quinto andar da sede nacional que fica o Guardi\u00e3o. Trata-se do supersistema de computadores que possibilita a administra\u00e7\u00e3o de centenas de escutas telef\u00f4nicas e cruza dados com arquivos policiais nacionais e do mundo. \u00c9 um dos mais modernos aparelhos de intelig\u00eancia policial do planeta, resultado de um movimento em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 renova\u00e7\u00e3o da matriz tecnol\u00f3gica da PF. O primeiro passo nesta dire\u00e7\u00e3o foi dado no ano 2000. At\u00e9 ali, a PF era vista como uma organiza\u00e7\u00e3o repleta de policiais \u201cchuta-portas\u201d e apodrecida pela corrup\u00e7\u00e3o. Nas esferas mais altas, a imagem era ainda pior. Chamavam-na de \u201cap\u00eandice\u201d das ag\u00eancias policiais dos Estados Unidos. Ao final dos anos 1990, os carros e at\u00e9 a gasolina da estrutura da PF brasileira eram doa\u00e7\u00f5es da Ag\u00eancia Central de Intelig\u00eancia (CIA). \u201cO dinheiro \u00e9 o nosso, as regras s\u00e3o nossas\u201d, chegou a declarar, em maio de 1999, o segundo da embaixada americana em Bras\u00edlia, James Derham. Se h\u00e1 males que v\u00eam para bem, esse foi um caso. Enquanto Derham teve de voltar para os EUA, convocado por seu governo, aqui come\u00e7ou uma mexida na velha estrutura. O or\u00e7amento ganhou refor\u00e7o. Saiu de R$ 100 milh\u00f5es em 1999 para R$ 200 milh\u00f5es no ano seguinte. As promo\u00e7\u00f5es passaram a privilegiar compet\u00eancia em lugar da antiguidade. Este ano, o or\u00e7amento da PF \u00e9 de R$ 600 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Numa palavra, a PF modernizou-se. Exemplo: a pris\u00e3o nos \u00faltimos dias dos assaltantes de banco come\u00e7ou a ser arquitetada h\u00e1 mais de um ano. O ponto de partida foi prosaico. Na busca de pistas em torno do assalto de R$ 164,8 milh\u00f5es do Banco Central em Fortaleza, em agosto do ano passado, um dos agentes federais n\u00e3o se esqueceu de colher, em meio \u00e0 lama formada \u00e0 volta do t\u00fanel abandonado, um cart\u00e3o usado de telefonia pr\u00e9-pago. Seu n\u00famero se desdobrou na seq\u00fc\u00eancia de escutas monitoradas pelo Guardi\u00e3o. Sem alarde, completando o trabalho de intercepta\u00e7\u00e3o de mensagens com espionagem em campo, os federais conseguiram, 390 dias ap\u00f3s a pescaria no barro, ouvir do bandido \u201cTorturado\u201d o elogio pela efici\u00eancia da opera\u00e7\u00e3o final. A cada dia, depois dessas pris\u00f5es, a institui\u00e7\u00e3o passou a receber uma m\u00e9dia de 100 e-mails de congratula\u00e7\u00f5es. Na parada militar da quinta-feira 7, em Bras\u00edlia, um pelot\u00e3o da PF desfilou. Foi o momento mais aplaudido da cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>Hoje, 11 mil policiais federais se revezam em miss\u00f5es pelo Pa\u00eds. T\u00eam o apoio de cinco helic\u00f3pteros, nove avi\u00f5es, duas dezenas de embarca\u00e7\u00f5es e contadas 2.327 viaturas. Desde 2003, esse aparato realizou 119 mil opera\u00e7\u00f5es. At\u00e9 as 17 horas da quarta-feira 6, nada menos que 3.728 pessoas haviam sido presas pela PF nos \u00faltimos tr\u00eas anos. Ao contr\u00e1rio dos servi\u00e7os de informa\u00e7\u00e3o dos Estados, que, at\u00e9 hoje, se sustentam na criminosa tr\u00edade tortura, gansos \u2013 como os informantes s\u00e3o chamados \u2013 e grampos ilegais, a PF age em parceria com ju\u00edzes e com discri\u00e7\u00e3o crescente. A Federal tamb\u00e9m cortou na pr\u00f3pria carne. Acusados de corrup\u00e7\u00e3o, mais de 60 integrantes da pr\u00f3pria PF foram presos nos \u00faltimos tempos. Outra demonstra\u00e7\u00e3o de que a PF, realmente, busca dar as costas ao atraso \u00e9 que o quadro de servidores, de 9.289 em 2002, chegar\u00e1 aos 15 mil no pr\u00f3ximo ano \u2013 quatro mil est\u00e3o em treinamento. O cargo est\u00e1 t\u00e3o em alta que no \u00faltimo concurso para agente 187 mil candidatos disputaram cinco mil vagas.<\/p>\n<p>A\u00e7\u00f5es incertas e segredos fazem parte do cotidiano desses policiais que muitas vezes n\u00e3o sabem ao certo o que v\u00e3o fazer. Antes das megaopera\u00e7\u00f5es \u2013 e foram 284 desse tipo nos \u00faltimos tr\u00eas anos \u2013, os agentes secretos ficam em total concentra\u00e7\u00e3o. Passam a noite juntos, confinados. S\u00f3 s\u00e3o avisados da tarefa em cima da hora. A partir da\u00ed, n\u00e3o podem mais falar ao telefone. Nos \u00faltimos meses, tr\u00eas agentes tra\u00edram essa norma e acabaram presos. Normalmente, para cada uma dessas opera\u00e7\u00f5es, a pol\u00edcia arregimenta agentes de norte a sul do Brasil. Quase sempre, os policiais dos Estados onde a miss\u00e3o acontecer\u00e1 n\u00e3o participam. No m\u00e1ximo, servem de guias. Novamente, para evitar vazamentos e conflitos de interesse. A mobiliza\u00e7\u00e3o para reunir os policiais \u00e9 um trabalho \u00e0 parte. Avi\u00f5es da pr\u00f3pria PF ou da Aeron\u00e1utica saem pelas capitais recolhendo os agentes escalados. Da origem ao destino, com tantas escalas, esses v\u00f4os podem durar at\u00e9 18 horas. A prepara\u00e7\u00e3o dessas miss\u00f5es, por\u00e9m, \u00e9 bem mais din\u00e2mica. A depender do tamanho e da urg\u00eancia da opera\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel, num curto espa\u00e7o de tempo de duas horas, colocar em qualquer cidade do Pa\u00eds um efetivo de 50 homens do destemido Comando de Opera\u00e7\u00f5es T\u00e1ticas, o COT, o grupo de elite da PF, esp\u00e9cie de Swat brasileira.<\/p>\n<p>Antes, as investiga\u00e7\u00f5es ficavam restritas \u00e0 burocracia da saleta do delegado e do escriv\u00e3o. Os agentes sa\u00edam \u00e0s ruas para cumprir dilig\u00eancias; na volta entregavam as informa\u00e7\u00f5es e o papel\u00f3rio era despachado, sem que fosse averiguado se aquele crime tinha rela\u00e7\u00e3o com um outro investigado pelo delegado vizinho. Agora, a pol\u00edcia cruza dados e mergulha mais fundo. Os bandos criminosos s\u00e3o investigados como um todo at\u00e9 se chegar ao tubar\u00e3o. Sa\u00edram os \u201cchuta-portas\u201d e entraram os \u201cpapeleiros\u201d, como s\u00e3o chamados os analistas de inform\u00e1tica.<\/p>\n<p>A parafern\u00e1lia de investiga\u00e7\u00e3o de que a PF tem lan\u00e7ado m\u00e3o ultimamente inclui equipamentos dignos de filmes de espionagem, como bot\u00f5es de camisa e telefones celulares que, na verdade, s\u00e3o c\u00e2meras e gravadores de \u00e1udio. Pequenos sensores que emitem sinais de GPS s\u00e3o colocados em ve\u00edculos de suspeitos. Isso permite acompanhar a localiza\u00e7\u00e3o dos alvos em tempo real. Em lugares considerados estrat\u00e9gicos h\u00e1 microc\u00e2meras funcionando 24 horas por dia. O monitoramento, remoto, pode ser feito de qualquer lugar do Pa\u00eds. No ano passado, 60 policiais foram treinados para infiltra\u00e7\u00f5es em quadrilhas, em tr\u00eas cursos ministrados aqui por policiais da Alemanha, dos Estados Unidos e da Inglaterra. Nas opera\u00e7\u00f5es Cana\u00e3 e Overbox, realizadas h\u00e1 um ano, ainda durante a fase de investiga\u00e7\u00f5es, um policial foi plantado num grupo de agentes da pr\u00f3pria PF e de servidores da Receita Federal, que haviam montado um balc\u00e3o de neg\u00f3cios no aeroporto de Guarulhos para vender vistos fraudados e facilitar o contrabando. Resultado: 50 pris\u00f5es.<\/p>\n<p>A Opera\u00e7\u00e3o Anaconda, realizada em 2003, \u00e9 tida como um marco para o trabalho de intelig\u00eancia da pol\u00edcia. \u201cAt\u00e9 essa data muitos dos nossos eram s\u00f3cios do crime organizado\u201d, conta um delegado paulista que pede o anonimato. Como entre os alvos estavam ju\u00edzes, integrantes do Minist\u00e9rio P\u00fablico e tamb\u00e9m policiais, foi preciso se cercar de cuidados para que toda a investiga\u00e7\u00e3o n\u00e3o ru\u00edsse. O know-how abriu caminho para outras opera\u00e7\u00f5es que, cada vez mais, inclu\u00edram nomes de famosos e poderosos. \u00c9 tamb\u00e9m o trabalho de intelig\u00eancia que permite aos policiais, muitas vezes, sair e voltar das opera\u00e7\u00f5es sem dar um tiro sequer. Conhecendo o inimigo, suas rotinas e seu potencial de rea\u00e7\u00e3o, fica mais f\u00e1cil. \u00c9 por isso que est\u00e1 dando certo. O que falta \u00e9 essa moderniza\u00e7\u00e3o chegar ao Poder Judici\u00e1rio, reposit\u00e1rio do trabalho policial.<\/p>\n<p>\u201cD\u00c1 ALEGRIA PRENDER GENTE GRA\u00daDA&#8221; <\/p>\n<p>A seguir, a palavra de um agente da PF sobre a Opera\u00e7\u00e3o Domin\u00f3, que prendeu em agosto toda a c\u00fapula do Estado de Rond\u00f4nia: <\/p>\n<p>No dia 3 de agosto, recebemos uma solicita\u00e7\u00e3o de agentes para uma opera\u00e7\u00e3o no dia seguinte. Me ofereci. Dever\u00edamos nos apresentar com uniforme ostensivo (roupa preta), mala para tr\u00eas dias, armamento pessoal, algema e r\u00e1dio. N\u00e3o nos foi dito para onde ir\u00edamos. Isso sempre motiva as apostas sobre o destino e a miss\u00e3o. \u00c9 dif\u00edcil algu\u00e9m acertar. Perto da meia-noite, os avi\u00f5es chegaram. A bordo fomos informados de que est\u00e1vamos indo para Rond\u00f4nia. Era f\u00e1cil reconhecer o tempo de servi\u00e7o dos policiais: quanto mais equipamento, menos tempo de pol\u00edcia. Tinha gente com fuzil, colete \u00e0 prova de balas, cantil&#8230; Na Base A\u00e9rea de Porto Velho, o briefing da miss\u00e3o foi dado \u00e0s quatro e meia da manh\u00e3. A miss\u00e3o atingiria a c\u00fapula do Estado. Sempre d\u00e1 alegria prender gente gra\u00fada. Quando chegamos \u00e0 casa do presidente do Tribunal de Justi\u00e7a, ele disse que ningu\u00e9m entraria \u2018porra nenhuma\u2019. O delegado mostrou o mandado de pris\u00e3o. S\u00f3 a\u00ed a ficha do desembargador caiu. E ele tamb\u00e9m. \u00c0s 12h40 do dia seguinte estava de volta a Bras\u00edlia. Contei a hist\u00f3ria para minha namorada e dormi depois de quase 36 horas no ar. <\/p>\n<p><strong>Alan Rodrigues, Hugo Marques e Rodrigo Rangel<\/strong>   <\/p>\n<p><strong>Isto \u00e9 num. 1925 <\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NULL<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","_joinchat":[],"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-8963","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias","et-doesnt-have-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sinpecpf.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8963","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sinpecpf.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sinpecpf.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinpecpf.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinpecpf.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8963"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.sinpecpf.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8963\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sinpecpf.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8963"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinpecpf.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8963"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinpecpf.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8963"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}