{"id":10749,"date":"2009-07-15T13:49:49","date_gmt":"2009-07-15T16:49:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sinpecpf.org.br\/site\/um-grampo-uma-farsa\/"},"modified":"2009-07-15T13:49:49","modified_gmt":"2009-07-15T16:49:49","slug":"um-grampo-uma-farsa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinpecpf.org.br\/site\/um-grampo-uma-farsa\/","title":{"rendered":"Um grampo, uma farsa"},"content":{"rendered":"<p>No dia 2 de setembro de 2008, o diretor-geral da Pol\u00edcia Federal, delegado Luiz Fernando Corr\u00eaa, foi ao gabinete do presidente do STF, ministro Gilmar Mendes. A tiracolo, levava dois outros delegados, William Morad e R\u00f4mulo Berredo, designados por ele para investigar a den\u00fancia de participa\u00e7\u00e3o da Ag\u00eancia Brasileira de Intelig\u00eancia (Abin) em um grampo telef\u00f4nico montado nas linhas de Mendes e do senador Dem\u00f3stenes Torres, do DEM de Goi\u00e1s. A den\u00fancia, feita pela revista Veja, insinuava a participa\u00e7\u00e3o direta do delegado Paulo Lacerda, ent\u00e3o diretor-geral da Abin, na escuta telef\u00f4nica ilegal. A revista trazia, a t\u00edtulo de prova, uma transcri\u00e7\u00e3o aleat\u00f3ria, provavelmente psicografada, de uma conversa angelical entre o ministro e o senador. Talvez tenha sido a revela\u00e7\u00e3o de grampo mais tel\u00farica da hist\u00f3ria do jornalismo investigativo brasileiro. Uma esp\u00e9cie de eu-te-amo-tu-me-amas montado, sob medida, para a dram\u00e1tica sequ\u00eancia de atos que viria a seguir. <\/p>\n<p>O gesto do diretor-geral da PF, ao levar os delegados \u00e0 presen\u00e7a de Gilmar Mendes, j\u00e1 \u00e9 pass\u00edvel de uma an\u00e1lise cr\u00edtica e, no fim das contas, desanimadora, sobre o patamar civilizat\u00f3rio de nossas institui\u00e7\u00f5es republicanas. Al\u00e9m do qu\u00ea, correu-se um risco tremendo. E se Mendes n\u00e3o gostasse deles? Se os achasse, sei l\u00e1, com jeito de g\u00e2ngsteres? Felizmente, a escolha foi do gosto do ministro. E por que n\u00e3o seria? Um dia antes, em 1\u00ba de setembro de 2008, Paulo Lacerda havia sido afastado da Abin, de forma sum\u00e1ria e humilhante, com base em uma mentira perpetrada por um ministro de Estado. E n\u00e3o um ministro qualquer, mas Nelson Jobim, da Defesa, respons\u00e1vel pelo comando das tr\u00eas for\u00e7as armadas. <\/p>\n<p>Jobim, ex-ministro da Justi\u00e7a de Fernando Henrique Cardoso, apadrinhou a indica\u00e7\u00e3o de Gilmar Mendes ao STF. Jobim \u00e9 professor do IDP, a escola de Gilmar Mendes. Jobim inventou que a Abin havia comprado, por meio do Ex\u00e9rcito, um aparelho capaz de fazer escutas telef\u00f4nicas. Foi desmentido pelo Ex\u00e9rcito. Foi desmentido pelo Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional. Foi desmentido pela Pol\u00edcia Federal. Jobim e Mendes s\u00e3o amigos. <\/p>\n<p>Pano r\u00e1pido. <\/p>\n<p>Para quem n\u00e3o se lembra, Paulo Lacerda estava no rol de inimigos do presidente do STF desde 2006, quando a Pol\u00edcia Federal havia vazado uma lista relativa \u00e0 Opera\u00e7\u00e3o Navalha, na qual constava o nome \u201cGilmar Mendes\u201d como benefici\u00e1rio de presentes dados a autoridades pelo empreiteiro Zuleido Veras, da construtora Gautama, envolvida num esquema mafioso de fraudes de licita\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. O ministro afirmou se tratar de um hom\u00f4nimo, mas, desde ent\u00e3o, jurou vingan\u00e7a a Lacerda. A mat\u00e9ria da Veja, dois anos depois, lhe serviu de espada. <\/p>\n<p>Possesso, violentado em sua intimidade telecomunicante, Mendes lan\u00e7ou as bases de um discurso progressivo sobre a exist\u00eancia de um \u201cEstado policial\u201d no Brasil, um mundo dominado por grampeadores malucos, um ex\u00e9rcito de arapongas a escutar sussurros e cochichos de Deus e o mundo, capitaneados, \u00e9 claro, por Paulo Lacerda. Diante de tamanha gravidade institucional, Mendes chamou o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva \u00e0s falas. E este, al\u00e9m de ir, tamb\u00e9m afastou Lacerda e o manteve, por tr\u00eas meses, escondido em uma sala carcomida no subsolo do Pal\u00e1cio do Planalto, inaugurando, assim, uma nova modalidade de deten\u00e7\u00e3o, o c\u00e1rcere funcional. Em seguida, j\u00e1 informado da fraude da qual havia sido v\u00edtima, era tarde demais, e Lula havia perdido a condi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de reconduzir Lacerda \u00e0 Abin. Despachou-o, ent\u00e3o, para o desterro, em Lisboa. <\/p>\n<p>Pois bem, leio, hoje, dia 1\u00ba de julho de 2009, na Folha de S.Paulo, que a investiga\u00e7\u00e3o da PF sobre os grampos n\u00e3o deu em nada. Nada. Dez meses de um inqu\u00e9rito tocado por dois delegados, conforme pedido expresso do presidente da Rep\u00fablica, sobre um grampo feito nas linhas do presidente do STF e de um senador da Rep\u00fablica. Nada. 300 dias para descobrir o que j\u00e1 se discutia abertamente nos jardins de inf\u00e2ncia das escolas municipais brasileiras, na hora da merenda: um grampo sem \u00e1udio \u00e9 uma farsa. Uma farsa que serviu-se da invencionice do ministro Jobim, provocou uma crise institucional, submeteu o presidente Lula a um constrangimento pol\u00edtico e promoveu o assassinato da reputa\u00e7\u00e3o de um homem de bem, o delegado Paulo Lacerda. <\/p>\n<p>Um deboche e um vexame.<\/p>\n<p>Autor: Leandro Fortes, <a href=\"http:\/\/www.cartacapital.com.br\/app\/coluna.jsp?a=2&amp;a2=5&amp;i=4457\">Carta Capital<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NULL<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","_joinchat":[],"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-10749","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias","et-doesnt-have-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sinpecpf.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10749","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sinpecpf.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sinpecpf.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinpecpf.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinpecpf.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10749"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.sinpecpf.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10749\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sinpecpf.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10749"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinpecpf.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10749"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinpecpf.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10749"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}