Operadoras pagam aos hospitais privados até 45% a mais na internação de um paciente. As consultas, por exemplo, são 8,6% mais caras do que nos demais estados. Por conta disso e da elevada renda familiar, o brasiliense paga o segundo maior preço de mensalidades de planos de saúde. GDF publica decreto que regulamenta assistência médica dos servidores.

Despesa das operadoras com exames, consultas e hospitais no Centro-Oeste é a mais alta do país, o que encarece as mensalidades. O valor de uma internação em Brasília é até 45% superior à média nacional

O preço para fugir das filas do Sistema Único de Saúde (SUS) é alto, como bem sabem as famílias que conseguem pagar um plano de saúde. Mas uma pesquisa da consultoria Strategy, especializada no mercado da saúde suplementar, mostra que os brasileiros que vivem no Centro-Oeste pagam ainda mais por isso. O custo de consultas, exames e internações é maior nos estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e, especialmente, no Distrito Federal.

Enquanto no país uma consulta para as operadoras custa, em média, R$ 31, na região esse valor passa de R$ 36, realidade semelhante aos demais itens da cadeia de atendimento, ainda mais evidente conforme os procedimentos ficam mais caros. “O preço da internação em Brasília é entre 35% e 45% maior do que a média nacional de R$ 2,3 mil”, diz uma das coordenadoras do Anuário de Custos de Plano de Saúde, elaborado todos os anos pela empresa Strategy, Raquel Marimon.

Segundo ela, por motivos diferentes o Distrito Federal e os demais estados da região têm custos mais elevados que a média nacional. Enquanto na capital prevalece a renda alta como fator preponderante, nos outros a principal influência está no “prêmio” aos profissionais que saem do eixo Rio-São Paulo. “Existe uma oferta pequena por profissionais especializados, como, por exemplo, neurologista. Para atrair esses médicos, os salários precisam ser elevados, o que impacta diretamente no custo das operadoras”, explica. Marimon. “Em Brasília o efeito é semelhante ao que acontece em praticamente todas as capitais de outros países, por causa da renda alta”, completa.

Mensalidades

Mesmo sem saber, o brasiliense sente essa diferença no bolso. O custo das mensalidades dos contratos no Distrito Federal é o segundo mais alto do país — só no Amapá, onde a concorrência é bem menor, o valor médio é maior. Para manter a assistência suplementar, os brasilienses desembolsaram por mês R$ 134,52, em média, durante o ano passado. Além de caro, o valor mostra um ritmo de crescimento acelerado, pois representa 36,17% a mais do que era pago em 2003.

A pesquisa da Strategy se concentra em 150 operadoras, com cerca de 10% do total de beneficiários de planos de saúde do país. Mas dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), órgão regulador do setor, também alertam para o crescimento dos custos. Segundo as planilhas encaminhadas pelas empresas à ANS, desde 2001 as despesas anuais com saúde cresceram cerca de 40%, de R$ 16,6 bilhões para R$ 27,8 bilhões. Indicadores da agência também mostram que a freqüência de utilização de consultas, exames e internações vêm aumentando.

A ANS divulgou recentemente dados financeiros das operadoras e considerou que as empresas estão caminhando em direção a uma maior eficiência. Ainda assim, a sinistralidade, termo que mede a intensidade de uso dos serviços, continua alta, na casa dos 80%. Ou seja, de cada R$ 100 arrecadados, R$ 80 são gastos com atendimento à saúde. No Centro-Oeste, mostra a Strategy, o índice médio é de 82%, também o maior do país. O ideal, segundo o mercado, é manter essa relação em até 75%.

“Saúde não tem preço, mas tem custo. As exigências da regulamentação fizeram com que a cobertura ficasse muito ampla e isso levou a um aumento dos custos das operadoras. Não é à toa que as pequenas empresas estão desaparecendo e o mercado ficando mais concentrado. Mais de 1,3 mil operadoras fecharam suas portas nos últimos anos”, diz o presidente da Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge), Arlindo de Almeida.

 Isso é propaganda enganosa, não contratamos plano de saúde no mercado porque estamos elaborando o nosso 

 

Cecília Landim, secretária de gestão administrativa do GDF

Servidores terão plano próprio

Os servidores do Governo do Distrito Federal poderão aderir, a partir de amanhã, ao plano de saúde próprio. O decreto que o regulamenta deve ser assinado hoje pela governadora Maria de Lourdes Abadia, que reassume o cargo no Palácio do Buriti. A publicação com os detalhes deve sair nesta terça no Diário Oficial do DF.

No portal do servidor (www.df.gov.br), o funcionário poderá preencher o formulário de adesão ao plano, chamado de Instituto de Assistência à Saúde dos Servidores do DF. Segundo a secretária de gestão administrativa, Cecília Landim, o valor da mensalidade variará de acordo com a remuneração de cada um e será de R$ 25 a R$ 280. A contrapartida do governo será de 1,5% da folha de pagamento, o que equivale a, aproximadamente, R$ 5 milhões.

A secretária acredita que, em um primeiro momento, 50 mil dos 120 mil servidores ativos deverão aderir ao plano de saúde. Além disso, o governo se prepara para incorporar 30 mil aposentados aos instituto. “Apenas quem quiser vai aderir”, garante Cecília.

A criação do plano foi anunciada em dezembro de 2005 e a previsão era de que os atendimentos começassem em abril. Apenas na semana passada o conselho que administra o plano concluiu o texto da regulamentação. Segundo Cecília, a intenção é oferecer serviços semelhantes aos demais planos. “Mas a lista de serviços pode aumentar”, diz. Só os exames mais sofisticados precisarão de autorização prévia. Trabalhos de prevenção e acompanhamentos psicológicos serão feitos nos centros de saúde.

Propaganda

Folhetos de planos de saúde distribuídos em Brasília apresentam a Unimed Confederação Centro-Oeste e Tocantins como “o plano de saúde dos servidores públicos e militares do GDF e do Governo Federal”. Mas a secretária nega a existência de contratos com a empresa. “Isso é propaganda enganosa, não contratamos plano de saúde no mercado porque estamos elaborando o nosso”, afirma Cecília Landim.

De acordo com a Unimed, o folheto é elaborado pelo Afinidade Clube, responsável pela venda de planos de saúde da empresa. “Eles fazem contratos com associações de servidores do GDF”, explica Marcos Héber da Silva, executivo de negócios da Unimed. A secretária, no entanto, defende que essa informação esteja explícita no texto. “Eles têm de dizer com que associação fecharam o negócio. Da forma como está, entendemos que atendem a todos os servidores”, afirma. Silva garante que recomendou a suspensão da publicidade.

Segundo o Afinidade Clube, trata-se de um plano empresarial estipulado pela Ordem Brasileira de Assistência ao Servidor Público, que aceita servidores dos governos local e federal, assim como outras entidades de classe. A empresa diz que as publicidades são previamente aprovadas pelas operadoras que, nesse caso, é a Unimed. “Jamais divulgamos qualquer contrato direto com o GDF”, diz Farias Sousa, diretor do Afinidade. 

Luís Osvaldo Grossmann e Edna Simão

Correio Braziliense